Série “Tremembé”: O Crime virou entretenimento no Brasil
por Gustavo Mayer Jornalista MTB 0099452/SP
A série flerta perigosamente com a glamorização do crime
A nova série Tremembé tem gerado debates intensos desde sua estreia. A produção, que retrata a vida de criminosos e assassinos que ganharam notoriedade no Brasil, reacende uma velha polêmica: até que ponto o entretenimento pode transformar tragédias reais em espetáculo?
Ao apresentar personagens como Suzane von Richthofen com um tom quase de curiosidade humana, a série flerta perigosamente com a glamorização do crime. Histórias de horror e perda acabam se tornando tramas “interessantes”, embaladas por roteiros envolventes, boa fotografia e até certa empatia com os condenados. Enquanto isso, as verdadeiras vítimas — como Andreas von Richthofen e tantas outras famílias destruídas pela violência — permanecem à margem, sem voz nem espaço.
Andreas, por exemplo, sobreviveu a uma tragédia familiar que marcou o país e ainda hoje lida com as consequências emocionais e jurídicas do crime. No entanto, enquanto a mídia transforma a assassina em personagem de série, ele segue esquecido, sem o mesmo interesse ou acolhimento público.
Esse contraste revela uma distorção preocupante: vivemos em uma era em que o sofrimento se torna conteúdo e o criminoso, celebridade. Ao humanizar quem cometeu atrocidades sem dar o mesmo peso às vítimas, a indústria audiovisual acaba reforçando um ciclo de desvalorização da dor alheia.
Contar histórias é importante. Mas contar apenas um lado delas é injusto. A sociedade precisa refletir sobre o impacto de transformar monstros em protagonistas, enquanto as vítimas continuam vivendo suas tragédias em silêncio.
1. Suzane von Richthofen
Foi condenada por homicídio triplamente qualificado pelo assassinato de seus pais, Manfred von Richthofen e Marísia von Richthofen, em 31 de outubro de 2002.
O crime foi planejado por ela em conjunto com os irmãos Daniel Cravinhos e Christian Cravinhos, que entraram na casa da família e mataram os pais com golpes de marreta enquanto dormiam.
Quando citada na série, Suzane é interpretada por Marina Ruy Barbosa.
2. Daniel Cravinhos & Christian Cravinhos
Os dois irmãos Cravinhos participaram do assassinato dos pais da Suzane.
Daniel era namorado de Suzane na época.
3. Anna Carolina Jatobá & Alexandre Nardoni
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foram condenados pelo homicídio triplamente qualificado da enteada de Anna, Isabella Nardoni, de 5 anos, em março de 2008.
O crime envolveu o arremesso da criança de um apartamento do 6º andar em São Paulo.
4. Elize Matsunaga
Condenada por assassinato qualificado e ocultação de cadáver após matar e esquartejar o marido, Marcos Kitano Matsunaga, em 2012.
O caso teve enorme repercussão nacional.
5. Roger Abdelmassih
Ex-médico da reprodução assistida, condenado a dezenas de anos de prisão por estupros e atentados violentos ao pudor contra pacientes de sua clínica entre 1990 e 2008.
6. Sandrão Interpretada pela atriz Letícia Rodrigues, a detenta Sandra Regina Ruiz, apelidada como Sandrão, se relacionou com Elize Matsunaga e Suzane na prisão.
Sandrão foi condenada por envolvimento em um sequestro seguido de assassinato ocorrido em 2003, quando tinha 20 anos. Ela e outros três cúmplices participaram do crime que vitimou um adolescente de 14.
Gustavo Mayer é jornalista e professor universitário especializado em planejamento . Pós-graduado pela Unicamp em Cinema e Ciências Humanas e pela Universidade Internacional de Curitiba (Facinter), desenvolve pesquisas e produções que analisam a relação entre estética, narrativa e impacto social na mídia e no audiovisual contemporâneo. Com atuação voltada à crítica cultural e ao jornalismo analítico, Mayer propõe reflexões sobre o papel da arte e do entretenimento na formação da consciência coletiva, explorando o limite entre representação, ética e espetáculo.